Já lá vai um (bom) tempo que não escrevo puto. Não o tenho feito por várias razões, talvez a mais premente das quais não andar com pachorra. No entanto hoje deu-me para isto. E sem mais demoras, vamos directos ao assunto. Aqui estão as bolachas que, IMO, realmente merecem destaque nesta última dúzia de meses (dispostas por ordem aleatória):
- Cynic: Traced In Air

Aquando da feitura de "Focus" em 1994, o colectivo liderado por Paul Masvidal decidiu que seria o 1º e último sob a mesma égide. Razão? Segundo a rapaziada, o resultado foi tão perfeito que quiseram ficar-se por ali e sair em glória (mais tarde formariam o projecto Aghora mas isso já são outros 500 paus).
Bom... se a premissa para lançar um novo album era transcender "Focus" em excelência só posso opinar que "Traced In Air" o faz com uma facilidade tão natural como surpreendente. Jazz metal estupidamente bem tocado, com um aroma progressivo , Vocoder de Masvidal a dar o mote (desta vez com menos gain, por vezes mesmo desligado) a contrastar com um grunhir arranhado aqui e ali (talvez o único elemento a mais uma vez que ao contrário do seu predecedor, "Traced In Air" parece respirar melhor sem a crueza deste adereço) tudo embrulhado num sentido de melodia único e apaixonante.
A abertura lembra-nos o crescendo duns Tool de uúltima leva... e o resto... bem, o resto é Cynic. Pontos altos do album? A totalidade (característica raríssima para qualquer apreciador minimamente exigente).
Para quem está familiarizado com o género, fácil e justamente se tornará num clássico.
- Nine Inch Nails: The Slip

Não me vou alongar mais escrevendo sobre a atitude louvável da parte do autor e crédito que "The Slip" merece logo a partida e extra-musicalmente. Para tal basta lerem o meu post anterior. Debrucemo-nos sobre a música então. Em "The Slip" Reznor apresenta-nos um album descontraído... é a descompressão do colosso conceptual "Year Zero" e do exprimentalismo ambiental de "Ghosts". O que gora à partida as expectativas de todos o que esperavam uma obra prima. No caso da esmagadora maioria dos projectos musicais, resultaria mesmo num disco flácido e para encher catálogo.
Mas (fanatismos aparte) mesmo em gestão de esforço, Trent Reznor consegue sacar um album de balanço de uma carreira com uma qualidade bastante aceitável, qual trilho de migalhas em conto infantil indicando um passeio de 20 anos. "Discipline" parece ser resgatado directamente do album de estreia, "1000000" podia aparecer em "Broken", "Head down" tem a ambiguidade dissonância/ melódia característica de muito corte de "Fragile" e "lights in the" é uma textura ambiental que encaixaria na prefeição em "Ghosts".
Trent Reznor não sabe fazer música má. Quando muito fica-se pelo "menos óptimo". Esse è o caso de "The Slip".
- Rosetta: Wake-Lift

Há uns dias tropecei neste disco algures na www. Quando me levantei para constatar a causa deu espalho, reparei que era o dedo mindinho de um colosso musical cuja audição me fez gelar as artérias. Lembro-me o quão demorou a encaixar uns TDEP ou uns Naked City antes da estranhesa desabrochar em paixão. À semelhança dos anteriores, estes Rosetta também não fazem uma sonoridade "fácil". Mas curiosamente, neste caso, não foi preciso esse iatus. Foi amor à 1ª audição.
E do que se trata? Pois bem: tracemos uma analogia a uma daquelas bases já feita que compramos para fazer uma tarte. Tal está para confeitaria como o suporte sonoro dos Neurosis está para "Wake-Lift". Músicas arrastadas, com dois ou três riffs base que nos 10 minutos de média per faixa são explorados até a exaustão de prespectiva, uma guitarra ritmo "noisy" e massiva qual parede de som, e voz berrada, rouca, monocórdica e distante.
Não façam confusões. Apesar de considerar os Neurosis grandes inovadores na óptica da concepção do som e exímios executantes, na minha opinião aqui dá-se um (ou vários) passo(s) adiante. Os Rosetta vão alem do massacre sentimental, da hipnose por uma redundância complexa e saturação musical (propositada, claro).
Para explicar este desvio voltemos ao nosso bolo: sobre a base pré feita, somos presenteados com condimentos cozinhados pelos próprios de comer e chorar por mais. Uma bateria com encaixes do mais original e próprio possível (enorme!), uma guitarra lead que oscila entre um David Gilmour e um The Edge, conferindo uma melodia tão dispar quão arrepiante em relação ao suporte sonoro. O próprio método que os Rosetta usam para disecar os escassos riffs base parece desmultiplica-los numa miriade de outros tantos, o que torna este disco no registo mais parecido com o velhinho psicadelismo-progressivo que muita banda hoje em dia tenta atingir mas fica a meio caminho.
Resumindo: adorei e recomendo. De comer até rebentar (embora as 1ªs dentadas possam parecer algo amargas).

0 comentários:
Enviar um comentário